Prova de touros jovens da Embrapa Cerrados simula “mundo real” da engorda de boi

Pesquisador destacou que objetivo do teste é encontrar reprodutores que possam produzir animais eficientes também para características que vão além do ganho de peso

É no Centro de Desempenho Animal do Núcleo Regional da Embrapa Cerrados em Santo Antônio de Goiás-GO que ocorre uma das principais provas de avaliação de touros Nelore jovens de todo o Brasil. Nesta sexta, dia 30, o Giro do Boi tratou do assunto em mais um episódio da série especial Embrapa em Ação, gravada justamente na unidade Cerrados. De lá, o repórter Marco Ribeiro conversou com o pesquisador Eduardo Eifert, engenheiro agrônomo, mestre em zootecnia e doutor em nutrição de ruminantes, sobre o assunto.

Prova da sua relevância é que depois de duas décadas desde a sua criação, os resultados da prova, realizada pela Embrapa Cerrados em parceria com a Associação dos Criadores de Zebu do Planalto e Associação Goiana dos Criadores de Zebu, costumam servir como referência na contratação de touros jovens pelas centrais.

“Para você gerenciar qualquer coisa, você tem que medir. Para você gerenciar o seu investimento em pecuária, você tem que medir e ter algumas referências. Como a gente consegue fazer isso? A gente projeta algumas metas de desempenho, taxa de ganho de peso no suplemento naquele pasto e a gente tem que ir, à medida do possível, auferindo, vendo se esses animais estão tendo o desempenho esperado deles”, simplificou Eifert.

E conforme destacou o pesquisador, somente a mensuração não basta. Como a prova simula um sistema produtivo em que o gado é abatido com 24 meses, num ciclo intensivo, as decisões precisam ser tomadas de maneira rápida. “Quanto mais rápida essa informação, mais rápida é a tomada de decisão. Tradicionalmente, o que se faz em fazendas? Pesagens a cada quatro semanas, ou seja, a cada 28 dias, ou até 56 dias. Mas quando você está trabalhando com nutrição e você quer um desempenho desses animais, em que você tira do bolso e precisa que esses animais realmente mostrem a resposta produtiva deles, esses períodos são muito longos até você ter a informação e tomar a decisão. Essa informação tem que chegar rapidamente”, apontou.

Para isso, a prova de touros jovens conta com tecnologiacochos eletrônicos e balanças automáticas que facilitam a leitura dos hábitos alimentares dos animais. “Nós temos um parceiro tecnológico, que é a Intergado. É uma empresa nacional que produz esses equipamentos e aqui nós temos em cada uma das remangas das nossas áreas de recreio aquelas plataformas. Nessas plataformas, a todo momento que o animal vai beber água, ele sobe na plataforma, pesa o animal, ele tem um brinco com RFID (identificação de radio-frequência) na orelha por sistema de rádio. Essas anteninhas passam a informação para a rede e dez minutos ou meia hora depois eu tenho essas informações lá no computador. Isso é bastante interessante porque o animal é pesado todo dia e mesmo que tenha variação do peso do dia, como você tem cinco a seis pesagens do animal hoje, amanhã e depois, com uma equação de regressão você consegue estabelecer a taxa de ganho de peso do animal e o peso que esse animal está atingindo. Quer dizer, você consegue gerenciar praticamente online todo o crescimento dos animais”, explicou.

Conheça no link a seguir e tecnologia da Intergado:

Cocho eletrônico: confinadores têm aliado para reduzir os custos de produção

Além do peso, a leitura do cocho eletrônico também faz parte da avaliação dos tourinhos. “Aqui nos cochos de suplemento nós sabemos o que cada animal está consumindo de suplemento, que horário e como é todo o comportamento alimentar. A gente sabe que dentro de um lote de animais, o consumo é diferente entre indivíduos, então tem animais que podem ter um desempenho pior consumindo concentrado e isso ele pode ter algum outro problema, uma doença subclínica, que a gente não consegue observar. Ou se ele é um animal de menor potencial genético para isso, o que é extremamente importante de ser identificado. Ou a gente também tem animais que consomem pouco do suplemento, mas têm potencial genético para disparar. Então a gente sabe da importância de identificá-los e saber quem é o pai dele, associando com esse desempenho. É importantíssimo na parte de desempenho a gente gerenciar todas as informações para a gente chegar lá no final e apontar quais animais de determinado lote não estão tendo desempenho correto e estão trazendo prejuízo porque você está investindo neles e eles não estão trazendo retorno. Num rebanho comercial, você vai tirar esses animais do sistema e passar para outro sistema de engorda mais barato, onde você não invista neles eu só fica os animais realmente responsivos para aqueles planos nutricionais determinados”, exemplificou.

Eifert detalhou como a prova dos jovens reprodutores é, na prática, um simulado de uma engorda comercial que quer descobrir quais dos touros vão produzir bois eficientes. “Aqui a gente monta o sistema. O nosso sistema simula, para o caso, o de um gado comercial de até 24 meses. Esses animais vêm para cá logo depois do desmame, com algo em torno de sete a nove meses de idade, em junho eles entram aqui e a prova termina 300 dias depois, em abril. Um ganho médio diário de 400 gramas por dia na seca é o nosso objetivo. A partir da seca, aí a gente usa também a suplementação no pasto, mesmo com o pasto verde, para a gente auferir ganhos um pouco superiores do que somente no pasto. A pasto o animal vai ganhar entre 500 e 600 gramas por dia. […] O nutricionista calcula o suplemento e nós colocamos meta de uma média de período chuvoso de 900 gramas por dia. Esses animais vão ganhar algo em torno de 140, 150 kg durante a época chuvosa. Por que isso? A gente praticamente dobra a taxa de ganho de peso do pasto. Mas a gente tem um maior proveito do pasto que está disponível na época de crescimento. Então se esses animais saem da primeira seca com algo em torno de 300 quilos na média e entram no sistema de suplementação, quando termina a prova, esses animais, na média, dos 120 estão com 420 quilos em abril. 420 quilos é o peso considerado muito bom para entrar em sistema de terminação, seja ela num sistema a pasto ou num sistema de confinamento. 420 quilos mais um ganho no confinamento de 1,5 kg por dia em 100 dias, são 120 quilos. Com 570 quilos, você fecha um animal de 21@”, calculou.

Pecuarista deve colocar fazenda para jogar no ataque durante as águas; entenda

SELEÇÃO DAS SELEÇÕES

Eifert destacou a pressão de seleção que os animais sofrem para entrar na prova de avaliação. “Os técnicos vão a campo visitar aqueles criadores interessados em trazer animais para cá e eles fazem lá mesmo na fazenda uma avaliação e aplicam um crivo dentro daqueles nascimentos do ano. Os melhores daquela fazenda vêm para cá. Quer dizer, dos 120 animais Nelore que hoje estão na prova, foram avaliados algo em torno de cinco mil animais nas fazendas de origem. Então aqui já é uma seleção das seleções”, comparou.

Embora os animais sejam avaliados entre os mais e menos eficientes no que diz respeito ao ganho de peso, Eifert ponderou que a informação genética também é levada em consideração para apontar outras características importantes além de desempenho em carcaça. “O que a gente está simulando aqui são planos nutricionais estratégicos para terminar gado com 24 meses. Só que tem a informação genética desses animais. E esses animais passam 300 dias a pasto, entram aqui logo depois do desmame e saem 300 dias depois. Então aqui são medidas 14 característica de reprodução, de carcaça e de desempenho e de crescimento. Mas tem a avaliação de genética de todos esses animais, pois eles participam de programas de melhoramento genético de Nelore, no caso. Então todo esse escopo, ao final da prova, você tem a classificação entre os 50% melhores e os inferiores. Eles saem daqui e vão lá para o confinamento para a gente medir o consumo que ele vai nos dar a resposta de eficiência alimentar, cujo nome é consumo alimentar residual, o chamado CAR. Ele é herdável, então é mais uma característica dentro de uma régua de DEPs que esses touros vão apresentar. E a gente está encontrando dentro do mesmo lote uma diferença de 20% no consumo alimentar residual. Os animais são ajustados para o mesmo ganho de peso, grau de acabamento, etc., mas tem animais que consomem 20% a menos do que o outro extremo, os menos eficientes, para produzir a mesma qualidade de carne, de carcaça, com o mesmo ganho de peso. Então a gente consegue identificar os animais mais eficientes”, acrescentou.

+ Usar touro avaliado deixou de ser diferencial e virou obrigação, diz pesquisador da Embrapa

TOURO PERFEITO?

“O interesse é comercial. Claro que nessa parte que envolve qualidade de genética, as centrais vêm aqui e adquirem os animais para serem contratados como doadores de sêmen nas suas unidades. O que é mais interessante é que aqui você tem muitos touros, mas não existe um touro perfeito, ou pelo menos a gente não sabe se existe ainda. Mas existem touros com uma boa régua de DEPs, equilibrada, com alguma propensão melhor para habilidade materna, para carcaça, para desempenho, para eficiência alimentar, então alguns destaques. Isso não se reúne única e exclusivamente em um touro. São vários touros. E aqui a gente tem todo esse escopo de informações em um leilão que acontece geralmente em agosto”, concluiu.

+ No cruzamento, encontrar touro ideal é mais importante do que escolher raça

Para produtores interessados em mais informações sobre a prova de avaliação de touros jovens da Embrapa Cerrados e/ou enviar seus animais para o teste, o contato pode ser feito pelo e-mail [email protected].

Confira a reportagem completa da nova temporada da série Embrapa em Ação no vídeo a seguir:

Foto ilustrativa: Reprodução / Facebook Embrapa Cerrados