Vaca que sofreu estresse não transmite suas qualidades para a cria

22 janeiro 2020
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Ela é considerada uma das melhores máquinas de colher que capim que existe, mas ainda assim sua vida dentro das fazendas de cria é difícil, sofrendo com as condições de nutrição e conforto térmico. Este é a realidade da matriz de gado de corte no Brasil. Por que isto acontece, quais as consequências disto para a produtividade da pecuária e como reverter este quadro? Nesta quarta, 22, o assunto foi abordado em entrevista com o médico veterinário, doutor em genética e professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP de Pirassununga-SP, José Bento Sterman Ferraz.

“A gente precisa entender melhor a vaca, a melhor máquina de colher de capim que existe. Ela colhe uma coisa de baixo valor, que é o capim, e nos devolve um produto de altíssimo valor agregado que é o bezerro”, introduziu o tema o professor. José Bento alertou para a baixa produtividade da cria no Brasil, com apenas 65% das matrizes em idade reprodutiva desmamando um bezerro por ano. “Que indústria é esta que mantém uma capacidade para produzir 100, 95%, e produz somente 65%?”, indagou.

Vaca vazia é um “inquilino caro” na fazenda

E por que razão as vacas são relegadas a segundo plano em boa parte das fazendas, prejudicando seu desempenho? “Eu acho que é falta de conhecimento. Uma informação que eu tenho usado muito é que quando a fêmea sofre estresse nutricional e até mesmo estresse térmico, o calor excessivo, ela pode bloquear a expressão dos seus genes. Ela tem o gene para ser uma produtora muito boa de alguma coisa, como peso à desmama ou outra característica, mas bloqueia a expressão do gene e esse bloqueio, se ela tiver uma filha, vai passar pra filha e vai ter este gene bloqueado na filha, que vai passar pra neta. Ou seja, um problema de nutrição nas nossas novilhas pode durar três gerações. Aí eu pergunto para os nossos amigos pecuaristas: quem é que recria fêmea com toda a atenção nutricional, colocando no melhor pasto? Praticamente ninguém, né?”, questionou Ferraz.

O veterinário ilustrou a importância da nutrição para o desempenho da cria com uma experiência observada junto a criadores do Mato Grosso do Sul. “A gente tem uma experiência muito interessante com amigos do Mato Grosso do Sul, em que a gente selecionou touros de precocidade sexual durante mais de dez anos e nunca a precocidade sexual, que é emprenhar uma bezerra de 14 meses, apareceu. Isto até o dia que eles começaram a colocar as fêmeas no pasto recém reformado. O ano passado, 64% das bezerras ficaram prenhas sem hormônio, sem IATF, mas com touro, aos 14 meses idade. Isso mostra que a nutrição é uma coisa absolutamente essencial para as nossas vacas”, frisou.

Precocidade sexual vai ser “novo capítulo” para o Nelore do Brasil

“A nutrição é essencial, está na cara. Mas qual é a média de idade dos nossos pastos hoje? 25 anos ou por aí sem reformar? Então como é que a gente quer que a produção seja mantida?”, alertou José Bento. O professor da FZEA/USP lembrou de conversa que teve com o ilustre agrônomo Fernando Penteado Cardoso, hoje com 105 anos, em que comentou que o pasto não é uma cultura perene. A visão foi corroborada por Cardoso, que completou dizendo que a queda de produção do pasto é de 50% ao ano, mesmo com adubação. “Não é cultura perene, tem que ser reformado”, reforçou José Bento.

12 etapas para você se tornar um craque do manejo de pastagens

“Comida tem que ter todo dia. A gente almoça e janta todo dia, né? E por que o boi e a vaca não têm comida para o ano todo? Ou seja, isso é uma coisa que o pecuarista tem que botar em prática: o uso de reservas de comida. Isso é assim no mundo todo. No Brasil a gente quer continuar sendo extrativista da terra e não dá! As adversidades climáticas estão aí […] e a gente tem que ter reserva de comida na propriedade. É tão simples quanto isso. Custa dinheiro? Custa, mas custa muito mais a queda de produtividade”, comparou.

Ferraz falou também sobre a importância da escolha do material genético que será inserido em sua propriedade, seja por touros melhoradores provados ou por sêmen para a IATF. “Eu acho que uma boa parte dos criadores […] troca pneu de carro periodicamente porque tem que trocar. Até mesmo porque os guardas pegam a gente e multam quando o pneu está careca. E por que a gente escolhe o pneu melhor, hein? Por que a gente pergunta se o pneu é melhor, quanto vai durar, se vai durar mais ou menos? Porque dói no bolso da gente! Por que a gente não faz isso ao escolher touro? E eu digo touro porque o reprodutor vai deixar filhas, e as filhas vão ser nossas fêmeas de reposição. Então escolha de animal, escolha de material genético é uma das partes essenciais do sucesso das propriedades. E propriedade que compra touro sem conhecer a qualidade genética dele está pagando mico de ficar com as fêmeas dentro de casa. Uma escolha errada de material genético hoje pode durar mais de dez anos dentro de casa”, advertiu.

E mesmo quando a lição de casa da nutrição é bem feita e a fêmea emprenha e tem condições para manter sua gestação, ainda há perigos para o criador. Bento avisou que uma das principais causas de aborto ou da morte de animais ao nascimento ou logo após é a neosporose, doença que pode ser transmitida inclusive pelas fezes dos cães no pasto.

+ Neosporose: doença infecta cerca de 15% do rebanho brasileiro e diminui em 44% o desfrute de novilhas em reprodução

Antes de encerrar sua participação no programa, José Bento estendeu convite aos produtores e profissionais da pecuária de área de produção de alimentos em geral para a Feira de Inovação e Tecnologias USP Alimentação 2020, que será realizada nos dias 29 e 30 de maio deste ano com exposição de trabalhos e participação de empresas relacionadas aos cursos do campus da USP em Pirassununga-SP – zootecnia, engenharia de alimentos, medicina veterinária e engenharia de biossistemas.

“Hoje nós já temos mais de 40 empresas que aderiram à feira, sejam de produção de animais, de vegetais, de alimentos processados, de tecnologias, de genética, de alimentação animal, ou seja, várias grandes empresas aderiram e estarão aqui para receber estudantes de graduação e pós-graduação, proprietários rurais, empresários, técnicos da produção de alimentos. […] E a gente forma aqui centenas de estudantes todo ano, então a oportunidade não é só conhecer o campus, mas também caçar talentos, oferecer oportunidade para estudantes de uma formação de excelência”, informou. O contato para interessados em participar da feira pode ser feito pelo telefone (19) 3565 4139 ou pelo e-mail uspalimentos@usp.br.

Veja a entrevista completa com José Bento Ferraz pelo vídeo abaixo:

 

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“Comida tem que ter todo dia. A gente almoça e janta todo dia, né? E por que o boi e a vaca não têm comida para o ano todo? Ou seja, isso é uma coisa que o pecuarista tem que botar em prática: o uso de reservas de comida. Isso é assim no mundo todo. No Brasil a gente quer continuar sendo extrativista da terra e não dá! As adversidades climáticas estão aí […] e a gente tem que ter reserva de comida na propriedade. É tão simples quanto isso. Custa dinheiro? Custa, mas custa muito mais a queda de produtividade”, comparou.

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“Hoje nós já temos mais de 40 empresas que aderiram à feira, sejam de produção de animais, de vegetais, de alimentos processados, de tecnologias, de genética, de alimentação animal, ou seja, várias grandes empresas aderiram e estarão aqui para receber estudantes de graduação e pós-graduação, proprietários rurais, empresários, técnicos da produção de alimentos. […] E a gente forma aqui centenas de estudantes todo ano, então a oportunidade não é só conhecer o campus, mas também caçar talentos, oferecer oportunidade para estudantes de uma formação de excelência”, informou. O contato para interessados em participar da feira pode ser feito pelo telefone (19) 3565 4139 ou pelo e-mail uspalimentos@usp.br.

Veja a entrevista completa com José Bento Ferraz pelo vídeo abaixo:

 

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